Os Grandes Clássicos

A Grande Guerra de 1914/1918, marcou um tempo de paragem no boxe mundial.

Os grandes combates tornaram-se raros. As poucas vedetas escapadas à guerra, não tinham adversário. Jess Willard põe o seu título, uma única vez, em jogo, entre 1915 e 1919. Battling Levinsky reina entre os «Meios-pesados» e Ted Kid Lawis entre os «Meios Médios». Depois de acabado o grande conflito, o boxe ganhou um incremento sem precedentes. Após aqueles anos sombrios, foram numerosos aqueles que pensaram em conquistar um lugar ao sol. Uma multidão de homens sente-se libertada. Muitas vezes, é nos campos militares que aprendem lições dadas pelos grandes do passado. Muitos pugilistas de valor, do antes da guerra, converteram-se em treinadores e «managers» e fizeram os recém-chegados beneficiar da sua experiência. Para subir ao cimo, não bastava ter uma direita poderosa – eram mais de cem os que a possuíam – todos queriam ganhar. Disto, resultou a elevação do nível do boxe praticado. Em consequência disto, as elites aparecem com menos facilidade e durante menos tempo. O vedetismo supõe, então, uma disciplina de vida mais rigorosa porque, se no passado o campeão podia apontar dez pretendentes, a partir de 1918, eles eram mais de cem. Com a ajuda do fenómeno da guerra, o boxe passou a interessar um muito maior número de pessoas e classificou-se como um dos grandes desportos universais. Os grandes clássicos não terão, senão, o mérito de se terem sabido superiorizar à massa. Ser-lhes-á preciso, além de uma panóplia técnica completa, uma centelha de génio. Cronologicamente, o americano Jack Dempsey e o francês Georges Carpentier, são os primeiros grandes de entre os primeiros grandes clássicos.

  1. Jack Dempsey

Jack Dempsey é sem contestação, o mais conhecido de todos os pugilistas do passado. O seu reinado estendeu-se desde Julho de 1919 – data em que derrotou por «K.O.» ao 3º assalto Jess Willard – até ao fim de Setembro de 1926, ou sejam, sete anos e meio. O seu poder de golpe era impressionante – em 60 vitórias, ganhou 49 por «K.O.» – a sua técnica segura e a sua notável capacidade de encaixe – pois em 81 combates, sofreu uma única derrota por «K.O.» – mas tudo isto não é o bastante para explicar a sua imensa popularidade. Esta, deve ser procurada no contacto que ele sabia encontrar com o público, que se juntava cada vez mais nas sessões de boxe, saído da sua matriz aristocrática.

Procurava descobrir o herói no qual se reflectissem os desejos do público. Ora sobre o ringue, Dempsey encarnava, exactamente, esse tipo de herói. Beneficiando de um carácter firme, demonstrava autoridade frente aos seus adversários e dirigia os seus combates com determinação. Ao mesmo tempo, não poupava esforços, o que o tornava espectacular. A sua actividade foi intensa – 23 combates em 1917 e 72 combates e exibições em 1931 – porque ele esteve sempre decidido a consagrar-se ao boxe. Ardor, brio, eficácia, eis as qualidades apreciadas pelo espectador. A personalidade de Dempsey ajustava-se perfeitamente ao mito do herói. Ora, o combate de boxe de natureza viril, teatral no seu desenvolvimento, é propício à revelação de uma ligação íntima entre o pugilista e o público. Visto por este ângulo, parece que a atracção de Jack Dempsey é mais psicológica do que técnica. Sob este ponto de vista, o estilo de Dempsey não atinge os pináculos, mas com o decorrer dos anos melhorou progressivamente, conforme o seu palmarés o confirma – a maioria das suas sete derrotas é anterior à conquista do título mundial.

Por outro lado, a sorte de Dempsey, ao longo da sua extensa carreira, deve-se ao facto do seu caminho se ter cruzado com o de adversários de grande categoria. Este facto foi, evidentemente, muito razoável para a expansão das suas reais capacidades. A partir de 1917, Billy Minsk, Georges Carpentier, Luís Firpo, Gene Tunney, Jack Sharkey, cruzaram-se com ele. Poucos pugilistas tiveram ou terão tido, depois dele, a possibilidade de terem à sua disposição adversários de tão alto gabarito e de tão diversos estilos. Pondo de parte as suas qualidades naturais, excepcionais, a explosão de Dempsey parece ligada ao contexto pugilístico dos anos vinte. Nascido em 1895 no colorado, Jack Dempsey iniciou a sua carreira em 1914. Foi sem grande dificuldade que, aos 26 anos de idade, se tornou campeão do mundo, «varrendo» o gigante Jess Willard (Julho de 1919). Nessa época, em consequência do conflito internacional, o mundo do boxe funcionava ainda em circuito fechado. A maior parte dos adversários eram de nacionalidade americana. Pouco a pouco, as relações desportivas intercontinentais, foram restabelecidas por completo. Na Europa e na América Latina, afirmaram-se novos talentos. Assim, Carpentier em França e Firpo na Argentina, forçaram Jack Dempsey a ter de medir forças com estes estrangeiros, a fim de confirmar o seu título de campeão. Em 1921 combateu com Georges Carpentier, que acabava de conquistar o título mundial de «Meios-Pesados». Ao interesse imediato suscitado pela organização de uma das primeiras reuniões pacíficas do pós-guerra, juntou-se a paixão ocasionada pelo choque entre o poderoso americano e o elegante francês. Enquanto em França se pensava que o combate era muito aberto e que a agilidade felina de Carpentier poderia levar a melhor sobre Dempsey, nos Estados Unidos da América, a opinião era totalmente diferente e a cotação muito favorável ao campeão. O combate foi combinado para doze assaltos e a ele assistiram oitenta mil pessoas, o que, sem constituir um recorde, demonstra bem o entusiasmo que a luta provocou. Depois do «challenger» ter feito estremecer o campeão, no segundo assalto, o titular acabou rapidamente e Carpentier foi posto «K.O.» ao quarto assalto.

Dois anos mais tarde, foi a vez do argentino Luís Firpo ser posto «K.O.», em dois assaltos, perante oitenta e dois mil espectadores. Em dois combates, Dempsey acabou por afirmar a sua supremacia sobre os pugilistas europeus e sul-americanos, representados pelos seus melhores pugilistas – Carpentier e Firpo. Assim reinou, sem contestação, até 1926, limitando-se a exibições e combates fáceis, mas, atraindo sempre muitos espectadores para os ringues.

Em Setembro de 1926 teve de enfrentar um pugilista cuja capacidade estava a subir, Gene Tunney, e perdeu o seu título em dez assaltos.

Em Setembro de 1927, a sua derrota do ano anterior, foi confirmada por uma nova decisão, aos pontos, em dez assaltos, favorável a Tunney.

Acabou, assim, o grande reinado de Jack Dempsey, quando tinha 31 anos de idade. Teve como maior consolo, o ter reunido cento e dois mil e cento e quatro mil espectadores, nestes dois últimos grandes combates. Foi um campeão de inigualável popularidade, que abandonou a «arena» desportiva.

Como se previa, os promotores tiraram os maiores proventos graças a uma exploração sistemática, na área comercial, o que faz com que, de certa forma, se possa dizer que Jack Dempsey está na origem daquilo a que se dá o nome de «boxing-business», ou seja, o negócio do boxe.

  1. Georges Carpentier

Até aqui, foi possível traçar a história do pugilismo, através da sucessão de campeões de «Pesados». A razão é que, apesar dos campeões de «Plumas» como Dixo, Attel, Kilbane, do «Leve» – Gans, do «Meio-Médio» – Ted Kid Lewis, do «Médio» – Ketchell e dos «Meios-Pesados» – Burns e Levinsky, o essencial da progressão técnica era-lhes atribuível.

Por outro lado, o público à procura da superioridade absoluta, mostrava muito maior interesse pelos homens fortes, do que pelo virtuosismo dos movimentos. Portanto, há um registo de arte pugilística inacessível aos homens pesados. A educação do público, a sua «cultura pugilística» consecutiva ao «boom» depois de 14/18, vão conduzir a uma especificação de estilos, segundo as diferentes categorias de peso e haverá um público tanto para as lutas titânicas entre «Pesados», como para os assaltos de grande beleza estética das categorias mais leves. Todas as partes participantes ganham uma nova evolução, neste sentido.

Em primeiro lugar, o público tem a livre escolha de vários tipos de combate. Em segundo lugar, os pugilistas podem ter uma carreira frutuosa, mesmo que não pertençam à categoria de «pesados». E, em terceiro lugar, os organizadores têm a possibilidade de organizar muito maior número de combates. A diferenciação das técnicas em relação aos pesos dos pugilistas, fará com que dentro em breve se fale do poder de soco de um «Pesado», do jogo de pernas de um «Médio», ou da velocidade de execução de um «Pluma». Este novo carácter nota-se, de tal forma, que certas nações irão ao ponto de se especializarem no «produção» de vedetas, segundo a morfologia dominante do país. Estão neste caso os grandes pesos «Médios» franceses – Thil, Cerdan, Villemain, Dauthuile, etc.; Os pesos «Galos» mexicanos – Manoel Ortiz, Becerra, Castillo, etc.; Os «Moscas» asiáticos – Shirai, Ebihara, Kingpetch, Chionoi; E os «Pesados» americanos (dezoito campeões do mundo).

Nesta perspectiva, Carpentier assinala-se como um percursor. A sua maneira de combater apresentava muitas originalidades e ele utilizava ao máximo os recursos do seu peso – 79 Kgs. O seu sucesso foi devido, em grande parte, à sua bizarra morfologia. Em qualquer das hipóteses, não há dúvida que fez escola, mas o seu estilo não era adaptável a um físico normal, de peso médio. A sua inteligência, no ringue, levava-o a combater em dois campos. Por um lado, os seus recursos e o poder de golpe, não são, senão, ligeiramente inferiores aos de um «Pesado»; Por outro lado, as suas faculdades de movimentação, são muitíssimo superiores.

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